MODA PRAIA
Biquíni, 60 anos
Em 2006, o mundo comemora os sessenta anos do biquíni.
Curitiba
Deluxe antecipa a data e conta como tudo começou

POR PRISCILLA FOGGIATO
FOTO: RAFAEL
DABUL
A menor roupa de banho do mundo. Foi com esse conceito
bombástico que o biquíni surgiu nas passarelas
internacionais. Nascida em julho de 1946, em Paris, pelas
mãos de Louis Réard, a idéia inicial
precisou passar por reformas e ganhar mais pano até
que alguma modelo aceitasse desfilar com ela. O nome da
criação era uma menção e uma
crítica aos testes nucleares que os norte-americanos
faziam na mesma semana no Atol de Bikini, no Oceano Pacífico.
A criação, que está completando sessenta
anos, abalou os padrões vigentes na época.
Até então as mocinhas só usavam maiôs
e tentativas de “duas peças”, que nada
mais eram que os mesmos maiôs divididos em duas
partes, sem mostrar o umbigo. Na época, a rainha
da elegância e mais famosa editora da revista Vogue,
Diana Vreeland, chegou a afirmar, “o biquini é
a invenção do século, o átomo
da bomba fashion”.
A reação contrária da sociedade foi
imediata. Porém, foi impossível conter as
estrelas de Hollywood e as pinups que imediatamente o
adotaram. A tal “imoralidade” ganhava as curvas
fartas de beldades como Ava Gardner, Jane Mansfield e
Rita Hayworth e, dessa forma, definitivamente começava
a fazer parte da sociedade. Pelo menos da sociedade americana,
pois o biquíni ainda demoraria dez anos para chegar
ao Brasil.
E Deus... criou o biquíni
Em 1956, Brigitte Bardot enchia os olhos dos espectadores
em E Deus... Criou a Mulher (Et Dieu... créa la
femme), de Roger Vadim, vestindo um duas peças
de babadinhos. Coincidentemente na mesma época
– exatos dez anos depois de sua invenção
– os primeiros biquínis começavam
a aparecer nas praias do Rio de Janeiro. A cidade, então
capital do país, já mantinha sua aura de
pioneirismo nos modismos e era aberta às mudanças
e novidades. As primeiras a desfilarem seus modelitos
foram as vedetes Carmem Verônica e Norma Tamar,
que tiveram coragem de encarar a areia e os olhares alheios.
“Alguns diziam que era falta de pudor, mas o carioca
não é de ter muito preconceito”, afirma
Regina de Souza, 61 anos. “Todas as minhas amigas
usavam, o pessoal olhava, mas não tinha nada de
repressão”. As mulheres cariocas viram no
biquíni um aliado a mais para exibir sua beleza.
“A mãe de uma amiga minha dizia ‘mas
filha, nem tem tecido direito nisso daí’,
e a gente dizia ‘mas é assim mesmo’
e saía para a praia”, conta.
Naquela época os biquínis eram trazidos
de fora do país. Não havia produção
nacional e nem os tecidos eram tão modernos: eles
eram feitos de algodão.
Em 1959, surgia a lycra, dando nova vida às roupas
de praia e aos biquínis. As rádios popularizavam
a moda, tocando “Era um biquíni de bolinha
amarelinho”, e as meninas podiam desfilar à
vontade com eles – desde que no Rio de Janeiro.
Nas praias do Paraná, ele ainda levou pelo menos
cinco anos para ser aceito.
Vinte anos depois...
“Nós já usávamos biquíni
nas praias daqui antes de 1960”, contam Valdete
Corrêa, 68 anos, e Dalva Corrêa, 65, irmãs.
“Mas éramos pioneiras, assim como também
usei calças compridas antes de todo mundo... E
a praia que freqüentávamos também era
bem mais calma”, justifica Valdete.
“Quando usávamos, as pessoas ficavam olhando
e até saíam de perto. Diziam que só
as mulheres de reputação duvidosa usavam
aquilo”, conta Dalva. O biquíni só
foi realmente tolerado pela sociedade paranaense por volta
de 1966, vinte anos depois da sua criação.
“Era difícil encontrar aqui para comprar,
então fazíamos os nossos, de algodão.
Eu tinha um amarelo de bolinhas, como na música,
que era um sucesso”, relembra.
Em fevereiro de 1966, a revista Panorama estampa várias
páginas com imagens do litoral paranaense em matéria
intitulada “O triunfo do bikini”, em que relata
que a moda terminou por se impor nas praias do estado.
Ironicamente, a matéria comenta também as
expectativas para o futuro do litoral, prevendo que no
ano 2000 estariam resolvidos os problemas de falta de
água, energia elétrica e saneamento, e o
turismo estaria plenamente desenvolvido.
Virou comum
Depois de aceito e estabelecido definitivamente em terras
brasileiras, a pequena invenção começou
a evoluir e foram criadas novas modelagens. Em 1970, já
definitivamente em lycra, foram lançadas a tanga
e o modelo de sutiã “cortininha”. De
tão pequeno, o traje de praia podia ser levado
no bolso: eram apenas quatro minúsculos triângulos
ligados por tirinhas.
E como sempre é possível diminuir, nos anos
80 consagraram-se a tanga e o fio dental. Em meados de
1980, até o topless deu o ar de sua graça
em praias brasileiras, tendo como expoente exibicionista
a modelo Monique Evans. Ainda nesse período surgiram
modelos como o “asa delta” e o “enroladinho”,
cujas laterais ficavam acima do ossinho dos quadris e
desfavoreciam o corpo de boa parte das brasileiras.
Também foi na década de 1980 que o Brasil
começou a se destacar na produção
de beachwear – roupas de praia. Foram abertas as
primeiras fábricas especializadas em biquínis,
como a Cia. Marítima e a Rosa Chá, e as
modelagens brasileiras passaram a ser famosas no mundo
todo.
A década de 1990 seguiu nessa linha e os biquínis
começaram a ficar mais elaborados. Foi a década
do acessório na praia. Mudaram os conceitos de
saídas de praia e cangas. Surgiram tecidos mais
resistentes para encarar mar e piscina e foram incorporados
materiais como o algodão e o crochê com lycra.
Atualmente, algumas fábricas brasileiras exportam
parte significativa de sua produção. Os
biquínis cresceram novamente em tamanho e a moda
ficou mais eclética. Usa-se de tudo: sunkinis,
tangas, cortininhas, tops, decotes e meia-taças.
Até o “engana-mamãe” vive ensaiando
retorno. Existem até lojas que permitem que se
monte o próprio biquíni, com as peças
que caem melhor no corpo de cada um. Sessenta anos depois,
pode-se concluir que Diana Vreeland estava certa: ele
veio para ficar.
Moda e exportação
Sete mil quilômetros de praias. Clima tropical.
Somando esses ingredientes e a beleza e sensualidade da
mulher brasileira, seria inevitável que o Brasil
se tornasse pólo exportador de beachwear –
como passaram a se chamar os trajes de banho.
Uma das primeiras empresas a se destacar no cenário
de produção de moda para a praia foi a Rosa
Chá, em 1988. Amir Slama, seu fundador, começou
fazendo roupas de ginástica com um pequeno lote
de lycra e quatro máquinas de costura que ganhou
de seu pai. Dez anos e muitos biquínis depois,
a Rosa Chá já chegava aos EUA e, em 2001,
teria seu primeiro desfile internacional. Atualmente Amir,
já chamado no exterior de Sun King (Rei do Sol),
exporta mais de 13% de sua produção para
países da Europa e o Japão.
Outra marca conhecida é a Cia. Marítima.
Fundada em 1990, é a maior empresa de beachwear
da América Latina e utiliza a larga experiência
com lycra e tecidos sintéticos do Grupo Rosset
– do qual faz parte – para o desenvolvimento
de sua moda praia. Com a consultoria de design de Fabiana
Kherlakian, a empresa exporta mais de 20% de sua produção
para Grécia, Chipre, Hungria, Rússia e Eslovênia,
além de vários outros locais da América
Latina, Europa e Estados Unidos.
A verdade é que o Brasil dita a moda de praia do
mundo todo. Para o verão 2005/2006, a Rosa Chá
e a Cia. Marítima adiantam as tendências:
nas praias terão vez o hippie chic, com bordados
feitos à mão e referências aos anos
70. Também ganharão as areias estampas imitando
animais. É escolher o seu e sair desfilando.
Moda praia masculina
Quando o assunto é moda praia para os homens, tudo
se torna mais simples, afinal, moda masculina sempre pareceu
menos elaborada e mais prática. Dos culotes usados
para o banho de mar na época do descobrimento do
Brasil, às bermudas atualmente preferidas pelos
surfistas, mais do que a modelagem, o que mudou foi a
tecnologia utilizada na fabricação.
O primeiro calção surgiu em 1846, numa época
em que roupas de banho ainda eram feitas de lã
para proteger de alguma possível friagem causada
por águas geladas. E a ousadia era usada somente
por nadadores, pela maior liberdade de movimentos. Desde
então, o material utilizado foi o que mais evoluiu.
Na década de 1950, quando o biquíni ameaçava
surgir em paisagens brasileiras, o que os homens usavam
era uma espécie de shorts de tecido sintético
parecido com o modelo que se usa para jogar futebol. O
conforto sempre prevaleceu ao estilo.
Pelos idos de 1970, as populares sungas “speedo”
– que em outros países eram usadas somente
para a natação – ganharam as praias
em modelagens de laterais largas e
cores escuras, incorporando a versão masculina
do biquíni.
Na mesma época, Fernando Gabeira estreava com ousadia
a tanga de
crochê. A moda não pegou, mas apontou tendências
e causou severa diminuição na modelagem
lateral das sungas, dando um ar mais moderno que permaneceu
até meados da década de 1990 aos poucos
que ainda a preferiam.
Os calções do estilo bermuda sempre permaneceram
em harmônica convivência com as sungas. Preferidos
pelo conforto e discrição, eles ganham pelo
corte moderno, tecido que seca fácil e a praticidade
de ir do mar ao boteco em poucos minutos sem precisar
trocar de roupa.

BOA FORMA
Boxe é
feminino, sim!
BEM-ESTAR
Multiespaço
para o espírito
MODA PRAIA
Biquíni,
60 anos
NUTRIÇÃO
Natal e
Réveillon sem sal de fruta
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