| QUALIDADE DE VIDA
Sofisticado, natural

Consumo de orgânicos cresce
30% ao ano no Brasil e mostra preocupação
das pessoas com uma opção de vida
mais saudável
RODRIGO APOLLONI
No tempo de nossos avós não se falava
em defensivos agrícolas, sementes de laboratório
e fertilizantes que vieram com “Revolução
Verde” dos anos 60. A produção
de alimentos aumentou, os preços caíram
e milhões de pessoas deixaram de passar fome.
Aparentemente, havíamos chegado ao melhor
dos mundos. Será?
Para muita gente, os avanços trouxeram riscos:
afinal, quais os efeitos desses alimentos sobre
o organismo? E a terra, está contaminada?
Algumas pessoas, inclusive, chamam a atenção
para a perda de contato com os ciclos e ritmos da
natureza. Esse modo de pensar já não
é mais coisa de “alternativos”:
atualmente, o consumo de orgânicos movimenta
cerca de US$ 30 bilhões ao ano em todo o
mundo - 95% do consumo se concentram na Europa,
Estados Unidos e Japão. No Brasil, o interesse
é crescente tanto entre produtores, quanto
entre consumidores: o país já possui
a segunda maior área plantada de orgânicos
do mundo e o mercado local cresce entre 20% e 30%
ao ano.
“A agricultura tradicional existe há
mais de dez mil anos”, lembra a engenheira
agrônoma Ruth Pires, coordenadora, no Instituto
Paranaense de Assistência Técnica e
Extensão Rural (Emater-PR), do trabalho técnico
com agricultores orgânicos na região
de Morretes-Guaraqueça. Ela mesmo cultiva
produtos orgânicos em casa. Aos sábados,
freqüenta a feira do Passeio Público,
uma das cinco realizadas na cidade, onde completa
a lista de alimentos. “Os orgânicos
são mais saborosos, saudáveis e têm
mais nutrientes”, garante.
Mais caros?
O cultivo de alimentos pelos métodos tradicionais
implica em certos cuidados. A terra não produz
tão rápido e as espigas não
têm, necessariamente, aquela cara “hollywoodiana”
das propagandas da tevê - os resultados, porém,
compensam. Mas, na hora de pagar pelo diferente,
é preciso gastar mais? Dados do Instituto
Biodinâmico (um dos principais certificadores
brasileiros de orgânicos), indicam que o custo
é entre 30% e 50% maior.
O produtor Paulo Ulisses de Godói, que vende
broas, biscoitos, geléias e conservas feitos
com produtos orgânicos, discorda: “Os
preços são parecidos. As pessoas podem
conferir isso nas feiras especiais.”
A história de Paulo Ulisses é interessante.
Comandante da VASP, acompanhou do céu o desmatamento
do norte do Paraná. Aposentou-se e trocou
São Paulo por uma propriedade em Tunas do
Paraná, próximo de Curitiba. Lá,
cultiva produtos orgânicos. Sua esposa, Aparecida
de Godói, fabrica os pães, doces e
conservas vendidos no Passeio Público. “Ela
é uma mestre-cuca de mão cheia”.
E quem compra orgânicos? “Normalmente
são pessoas de bom nível sócio-econômico.
E é comum encontrar executivos e técnicos
de empresas como a Renault, por exemplo”,
conta Paulo Ulisses.
Segundo a prefeitura de Curitiba, as feiras de orgânicos
vendem 47 toneladas de produtos todos os meses.
E as vendas devem aumentar: até o final do
ano, o Mercado Municipal deve ganhar um pavilhão
só para esses produtos. Também é
possível encontrar orgânicos em supermercados
e em lojas de produtos naturais.
Cafeteria
Voltando aos nossos avós: quem não
lembra das ervas colhidas no quintal e usadas em
chás contra gripes e indisposições?
E daquele famoso café “do interior”,
especialmente colhido, torrado e moído para
celebrar os melhores amigos? Na onda dos orgânicos,
esses produtos também voltaram à moda.
Um exemplo é a Terra Verdi Cafeteria, que
há seis anos oferece cafés orgânicos
em um shopping no Centro de Curitiba. “Desde
1992 nós exportamos para o Japão,
Taiwan, Alemanha e Estados Unidos. Em 2000, resolvemos
abrir em Curitiba a primeira cafeteria orgânica
do país”, explica o proprietário,
Claudio Ushiwata. Segundo ele, nos últimos
anos os brasileiros adquiriram uma percepção
mais sofisticada do sabor do café.
“A diferença do orgânico está
nas papilas gustativas”, ensina. Segundo Claudio,
uma das características do café orgânico
é a persistência do sabor. “Além
disso, não agride o céu da boca. Você
não precisa tomar água logo depois”,
garante. O café exportado pela empresa é
produzido em duas fazendas no Paraná e uma
em Minas Gerais.
Serviço: Feiras de orgânicos
em Curitiba:
Terças-feiras: das 7 às 12 horas -
Rua São Vicente de Paulo (Campina do Siqueira).
Quartas-feiras: das 7 às 12 horas - Praça
do Expedicionário (Alto da XV).
Quintas-feiras: das 15 às 20 horas - Praça
do Japão (Água Verde).
Sábados: das 9 às 13 horas - Passeio
Público (Centro) e Praça Itália
(Jardim Botânico).
(informações em http://www.curitiba.pr.gov.br)
Terra Verdi Café (Shopping Itália):
(41) 3324-8437
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