| SAÚDE
 
Curvas não tão perigosas
RODRIGO WOLFF APOLLONI
Altura: 1,75m (mínimo). Manequim: 38 (máximo).
Curvas: o mínimo
suficiente para caber em qualquer roupa sem
necessidade de grandes
ajustes. Esta, para muita gente, é a receita
padrão de toda modelo
que se preze. Mas será
que o padrão estético “oficial” das modelos
chega apenas
até aí? Experts
garantem que não.
A prova de que “há vida com mais curvas” são as protagonistas das propagandas de cerveja.
Douradas, sorridentes e ultra-saudáveis, elas esbanjam um tipo de beleza que não passa por medidas
corporais rígidas. Isso não as impede, porém, de ocupar um espaço importante nos castings das agências e
nem de, muitas vezes, ganhar mais do que as modelos
de passarela. Essas modelos se enquadram naquilo que
os bookers chamam de “perfil comercial”, que admite
padrões estéticos diferentes dos convencionados para
as passarelas. Aliás, o perfil das passarelas é chamado
fashion. “As medidas no perfil comercial não são tão
rígidas. Você pode encontrar, por exemplo, uma menina
com manequim 40 ou quadril 93. A exigência é de que
o corpo esteja em forma”, diz a booker da Ford Models
em Curitiba, Dea Meissner.
Ela explica que noventa por cento do trabalho das
modelos comerciais são feitos na área de publicidade,
normalmente em televisão, fotografia e cinema. Há, ainda,
trabalhos em que o corpo fica em segundo
plano; neles, o importante é ter um rosto bonito
ou, então, mãos, pés ou uma expressão
que conquiste o cliente.
Como a duração das campanhas publicitárias
normalmente é maior do que uma temporada
de desfiles, as modelos comerciais podem
ganhar mais do que as de perfil fashion. Aliás, a ilusão dos cachês “astronômicos” nas
passarelas é semelhante à crença de que todo
jogador de futebol ganha bem. Existe uma escala
de talentos e valores. Um exemplo de modelo comercial apontado
por Dea Meissner é Michele Fedalto (foto). “Ela tem um corpão. E a gente diz ‘corpão’ porque
não está dentro de medidas super-rígidas. Mas é um corpo lindo, bem cuidado. Ela faz publicidade de
lingerie e de produtos diet.”
Dea observa, ainda, que os desfiles de moda praia (beach wear) também pedem
modelos “corpão”. A lógica é de que, sempre que o corpo é mostrado, há a
exigência de um certo “volume”.
“Para vender um
biquíni é preciso ter seios e
quadril marcados, para fazer
um desenho bonito.”
Magreza saudável
O diretor geral e sócio da Mega CWB, Pietro Barana,
explica que as modelos
fashion devem seguir um padrão rígido de altura, magreza
saudável e leveza, e que, às vezes, elas podem
passar para o perfil comercial por conta da idade. “No caso da altura, dependendo do país, há
possibilidade de trabalhos de passarela para
meninas abaixo de 1,75 m. Nós tivemos
uma modelo de 1,70 m que foi para o Japão,
mas não é regra. Normalmente, abaixo da
altura mínima é só comercial.” Barana avalia
que mulheres do tipo “gostosa” tendem
a se enquadrar no padrão comercial.
Juliana Abagge (1,81 m, 61 kg e 24 anos) é modelo há seis anos. Atualmente, trabalha
apenas no perfil comercial. “Optei por conta
da idade e também do corpo. Minhas pernas,
por exemplo, não são tão finas, e eu não
encano com isso”, analisa. Segundo Juliana,
a exigência de modelos mais magras para as
passarelas é justificável. “A modelo deve
ter leveza, caso contrário a roupa não
fica bem nas passarelas.”
A modelo considera o trabalho
comercial mais tranqüilo, mesmo
porque existe uma valorização da identidade
pessoal. “É um perfil que pede
gente de todos os estilos.”
Entre dois mundos
Há, também, meninas que trabalham nos
dois perfis. Um exemplo é Jéssica Oliveira
Justus (1,79 m, 59 kg e 17 anos), modelo
há dois anos. Uma de suas principais preocupações – relacionada ao trabalho de passarela – é com o peso. “Há meninas que são
magras por natureza e há meninas que têm
dificuldade para emagrecer, que é o meu
caso. E eu tenho ‘corpo’ e meu quadril é
largo, o que pode prejudicar na hora
de tomar as medidas.” A questão,
que em outros tempos a incomodou
muito, agora – garante - é tratada
com mais serenidade. “Eu já me
preocupei demais e agora estou tranqüila. Mas não deixo
de me cuidar.”
Uma receita para o fashion perfeito
Ortodoxia digna de um talibã, folhas de alface
no prato e pânico de perder trabalho por conta do
peso. Para muitas modelos fashion, imagens como
essas são velhas conhecidas. Há, de fato, um império
das medidas nem sempre bem administrado
pelo mercado da moda. Mas, afinal, de onde vêm
essas “medidas exigidas”?
Dea Meissner explica que a questão é instrumental. “No mundo inteiro, para as modelos
fashion, são pedidos o manequim 38 e uma altura
mínima. Isso acontece porque, quando um estilista
vai apresentar uma coleção, cria peças em tamanho
padrão que vão ser mostradas em vários
lugares. As modelos devem caber nessas peças.”
Ela diz que o
mercado não pede
que as modelos sejam
um “varapau”,
mas que se mantenham – com saúde
- nas medidas exigidas.
Na avaliação da
booker da Ford, o
risco de transtornos
alimentares como
anorexia entre as
modelos está associado
ao estresse a
que muitas vezes são submetidas, principalmente
quando trabalham longe da família.
A vulnerabilidade aumenta por conta de fatores como a pouca
idade, a quantidade de trabalho e o medo de veto
nos desfiles por estar fora das medidas. “Na Ford
não temos esse problema, mesmo porque os modelos
contam com acompanhamento de nutricionistas,
sempre mantendo contato com a família”.
Magreza em excesso, observa Pietro Barana,
não faz parte do padrão. “É claro que você precisa
passar elegância e leveza, e por conta disso as modelos
fashion devem ser magras. Mas uma coisa é ser magra e a outra é ser doente. São duas coisas muito diferentes.” Segundo ele, um exemplo
comme il faut é o de Gisele Bündschen, modelo
de silhueta bem marcada, cintura fina e quadril de
mulher. “Para desfilar você precisa passar elegância
sendo mulher mesmo, com curvas, sinuosa, e
não ser reta como uma parede”, decreta.
Barana já chegou a recomendar ganho de peso
para adequar uma modelo ao padrão. “Quando é preciso, ela pode ‘colocar’ um quilinho a mais.
Mas de músculo localizado, no lugar certo, e não
de gordura.”
Serviço: Ford Models – Rua Cel. João Guilherme Guimarães, 677, Mercês. Tel.: 3015 3747. Site: www.fordmodelsparana.com.br
Mega CWB – Rua Dr. Carlos de Carvalho, 655, cj. 25 a 27.
Tel.: 3016 5958. Site: www.4wmodels.com.br
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