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MODA

Japan POP show

DANIELLE BLASKIEVICZ E RODRIGO APOLLONI

Nem só de sushi, sumô, Godzilla e chá verde é feita a cultura nipônica. Em todo o mundo, o Japão é sinônimo de vanguarda na moda e no comportamento. Cortes de cabelo, maquiagem, cores e texturas de roupas são apenas alguns dos itens nos quais, sem perceber, as pessoas seguem o que vem “do lado de lá” do mundo. Entretanto, para muitos jovens de Curitiba a relação com o japanese pop way of life é muito mais profunda. Fãs assumidos dos ícones dessa cultura – que chega através dos animes, mangás e jogos eletrônicos, e que é compartilhada por meio de fotologs –, eles incorporam seus signos no vestir,
falar e até nos lugares que freqüentam. O contato de Natália Brückner com a cultura pop japonesa
nasceu aos 14 anos (agora ela tem 19), quando aprendeu a desenhar mangá com uma amiga. “Eu me interessei pela cultura, pelo idioma e pela música. Aliás, sou viciada em J-rock (rock japonês) e foi a partir daí que eu conheci a moda.” Entre as bandas preferidas de Natália estão Dir en Grey, Malice Mizer, The Gazette e Vidoll, cujo visual – pelo menos para quem pensava que a cultura pop nipônica acabava nos programas da NHK – está além da dimensão glam-metal-feminino-kabuki.

Outra influência é o visual de Harajuku, região de Tóquio que reúne adolescentes, designers, performers e fashionistas e que é considerada o lugar mais criativo – ou, pelo menos, o mais colorido – da moda atual (ver matéria na p. 14). Em Tóquio, porém, os jovens têm dinheiro para gastar nas caríssimas lojas da Omotesando Street. E em Curitiba? “Em algumas lojas, é caro. Mas, se você mesmo desenha e manda fazer, é tranqüilo”, garante.

Em relação ao estilo, Natália se diz “bipolar”. “É engraçado. Eu me enquadro tanto no estilo elegant gothic lolita aristocrat, baseado no Romantismo, quanto no fruit, que é o mais colorido de Harajuku.” Entre as roupas preferidas estão um vestido de veludo alemão, um casaco em estilo vitoriano e um vestido xadrez “bonequinha”. “Quase todo meu guarda-roupa é constituído disso, então eu uso sempre. E as pessoas gostam.”

Niponidades

A estudante de Design de Produto Pedrita Setenareski, 19, é dona de um corte de cabelo assimétrico inspirado na personagem Ashe, do game “Final Fantasy XII”. Ela mantém um guarda-roupa dedicado à “niponidade” clássica e contemporânea. Normalmente, explica, as roupas são usadas para cosplay, a caracterização em eventos que reúnem fãs da cultura pop japonesa. No dia-a-dia, porém, Pedrita combina elementos para criar um look em que saias, camisetas, mochilas, bolsas, faixas e bottons são colocados em um contexto de criatividade e moda pessoal. O visual do estudante de Direito Igor Moura, 25, inclui
camisetas, bonés, munhequeiras, chaveiros e outros itens dignos de um freqüentador de Yoyogi Kouen (parque de Harajuku que reúne uma fauna fashionista-performática). Cosplayer de carteirinha, ele já saiu de casa caracterizado como Auron, personagem do game “Final Fantasy X”, e chamou a atenção dos freqüentadores de um grande shopping da cidade. Pudera: Auron se veste com um sobretudo vermelho grosseiro, coturnos com polainas de aço, calças em estilo militar e uma gola que mais parece um retalho de camisa-de-força. Ah, e carrega uma alabarda de quase dois metros de comprimento. “A maioria das pessoas olha com cara de espanto, mas algumas sabem do que se trata e param para conversar. Às vezes, a gente acaba até fazendo novas amizades”.

Ichigo

A designer gráfico Sabrina Foggiatto, 27, também é apaixonada por personagens
de animes e mangás, mas não se arrisca a fazer cosplay. “Para isso é preciso, pelo menos, ser parecido com o personagem. Senão, pode virar piada”, observa. O olhar crítico não a impede de incorporar elementos do universo pop japonês ao vestir do dia-a-dia (nada mais justo: na moda, os parâmetros são outros). “Uso bolsas, blusinhas, relógios, bottons e chaveiros. Mas não caio em exageros.”
Sabrina até criou uma loja virtual, a Ichigo-toys, em que vende bonecos, estatuetas de personagens e acessórios de moda. Ela aproveita as compras em distribuidoras virtuais no Japão, Estados Unidos e Hong Kong para abastecer o próprio guarda-roupa. Fernanda Trindade, 20, é estudante do quarto período de Estilismo e Confecção de Moda do Senai. Ela também importa roupas, sapatos e acessórios do Japão. No cotidiano, sua principal referência são os calçados – a compra mais recente foi um par de sapatos brancos de plataforma (investimento: R$ 160). Complementam o visual jeans e camisetas com estampas de caveiras, oncinha, coroas, listas e xadrez.

Moda divertida

O estilista Roberto Arad se identifica com os jovens curitibanos que incursionam pelo mundo da moda “cosplay-Harajuku”. Ele observa que a tendência, comum em outros países desde os anos 90, chegou tardiamente ao Brasil. “Esses meninos e meninas perceberam que a moda é para quem sabe criar personagens, que é algo divertido. Eles estão atrás do novo, não têm amarras”, analisa. Segundo Arad, acompanhar esse tipo de movimento sem preconceito é uma atitude inteligente. “Ainda que às vezes seja perceptível uma certa falta de referências, vale a pena tentar entender as linguagens que eles usam.”

Serviço: Ichigo-toys – www.ichigo-toys.com.br.

Por dentro de Harajuku

Saias pregueadas típicas dos uniformes das estudantes japonesas, vestidos dignos de “O Morro dos Ventos Uivantes”, roupas metalizadas, bandanas, cabelos coloridos e/ou de corte assimétrico, meiões e estampas inusitadas são marcas da moda em Harajuku, a região mais badalada de Tóquio. É perfeitamente possível afirmar que, se a corte de Maria Antonieta ou os personagens de “Blade Runner” aparecessem por lá, não causariam frisson em relação ao visual. Para a editora de moda Érika Yamamoto Lee, 33, Harajuku reflete o Japão contemporâneo. Segundo ela, quando o país se tornou potência econômica, a cultura pop ocupou o lugar de valores mais tradicionais. “Os pais ficavam doze, catorze horas trabalhando e os filhos procuraram suprir essa ausência. Como? Com mangás e animes.”

Na avaliação da consultora americana Faith Popcorn, presidente da empresa de marketing BrainReserve, a moda de rua e a cultura japonesa terão a mesma influência que a moda inglesa exerceu nos anos 70. Harajuku, principalmente nos finais de semana, é um colossal desfile de moda a céu aberto, tendo as ruas como passarela e os freqüentadores como modelos e personal stylists. Góticos, punks, neo-hippies e patricinhas desfilando bolsas da Louis Vuitton dividem o mesmo espaço urbano. O vestir, principalmente entre os jovens, transformou-se em um intenso processo de leitura e criação. Para espanto, admiração e delírio de quem curte moda e comportamento. (DB)



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