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Uniforme...Multiforme
MARÍLIA BOBATO
FOTOS: RAFAEL DABUL
Marília Bobato Você se lembra dos dias de escola, quando era obrigado a usar uma roupa igual à de seus colegas? E das partidas de futebol, das aulas de balé, do trabalho de terno ou macacão? Estudante, guerrilheiro, atleta, executivo – todo mundo usa (ou já usou) uniforme. Até as roupas do papa, quem diria, seguem um padrão. Diante de tamanha presença, surge a pergunta: uniforme, afinal, é só uniforme? Com a palavra, a moda.
  
 
A definição dicionarizada de uniforme – “vestuário criado segundo um modelo oficial e comum, para uma corporação ou classe” – leva qualquer um a classificar esse tipo de roupa como chatíssimo. Chato mesmo é encarar de má vontade a obrigação de usar ou o efeito “vou ficar igual a todo mundo”. As roupas, em si, podem ser muito bacanas – tanto é verdade que há muito tempo elas estão no rol de inspirações dos criadores de moda.
Os padrões militares de vestuário, por exemplo, exercem verdadeiro fascínio sobre muitos fashionistas. “O militarismo virou um clássico. De tempos em tempos ele retorna às coleções”, diz o estilista curitibano Jefferson Kullig, para quem a “moda de caserna” é a mais influente dentre as fontes de referência baseadas nos uniformes. Kullig acredita que esse poder nasce de uma associação quase arquetípica entre o soldado e a busca ou afirmação de identidade. “Quando a pessoa compra uma roupa de padrão militar, paga também por um conceito, algo relacionado à luta por uma causa.” A própria História explica porque os uniformes militares exercem tanto fascínio. Nascidos na Boêmia (na atual República Tcheca) durante a Guerra dos Trinta Anos (1618 – 1648), foram concebidos não apenas para facilitar a identificação dos combatentes, mas para tornar a luta mais fácil e impressionar os oponentes. Durante as Guerras Napoleônicas – no início do século XIX - apareceram novas combinações de peças, cores e acessórios. Cem anos depois, a Primeira Guerra Mundial incorporou as casacas e a camuflagem aos uniformes. Mais do que assustar, a ordem era se tornar invisível para o inimigo.
As roupas ganharam mais bolsos, se tornaram mais práticas. Com tantas utilidades (e cada vez mais conforto), as roupas utilizadas inicialmente nas guerras não poderiam ter ido parar em outro lugar senão nos guarda-roupas de homens e mulheres comuns. Para a professora de Fundamentos Psicossociais da Moda do curso de pós-graduação do Senai-PR, Andreana Büest, essa foi uma passagem lógica, uma vez que os conflitos militares costumam produzir avanços tecnológicos em diversos setores, inclusive no têxtil. “A moda incorpora rapidamente os conceitos de desenvolvimento de novos tecidos, caso, por exemplo, dos que absorvem a energia solar ou que facilitam a camuflagem”. Vestir a camisa
Luizinho só anda de carro, mas vai para a balada com tênis especialmente criados para corredores do Iron Man. Não entende nada de baseball , mas não tira da cabeça o boné dos Boston Red Sox. E ganhou da namorada uma camiseta fantástica do Dínamo de Kiev. Estranho? De maneira alguma! No século XXI, a moda esportiva chegou às ruas alimentada por um verdadeiro batalhão de designers, estilistas e pesquisadores. A motivação para usar roupas originalmente desenvolvidas para competição está no simbolismo (saúde, competitividade, vitória) e no conforto que elas normalmente proporcionam.

Na avaliação de Jefferson Kullig, o aspecto saúde é especialmente valorizado, mesmo em trajes que jamais entrarão em quadra. Ele cita o caso das listas, antes comuns em agasalhos e, hoje, presentes em vários tipos de roupas. É o que se vê, por exemplo, nas coleções de marcas como Puma, Adidas e Lacoste. A moda fitness , nascida nas academias de ginástica, segue o mesmo caminho – é cada vez mais comum encontrar trajes de academia em contextos, digamos assim, “não-acadêmicos”. Proprietária da marca esportiva curitibana Extra-classe, Rita de Cássia Graf desenvolveu (em parceria com a artista plástica Índia O'Hara) os colants usados pela seleção brasileira de ginástica olímpica no Pan do Rio. Para ela, a valorização da moda esportiva tem muito a ver com a evolução do esporte e com o surgimento de ídolos. “As pessoas vêem os super-atletas como exemplo e expressam sua admiração usando roupas inspiradas neles.” As associações positivas entre esporte e comportamento, diz Rita, também motivam uma procura por roupas “mais conscientes”, isto é, produzidas com um nível menor de agressão ao meio ambiente.
Da escola para os guarda-roupas
Quem conhece apenas os uniformes dos estudantes de nossos dias – muitas vezes “largadões”, minimamente caracterizados ou customizados - pode até duvidar, mas houve tempo em que a roupa de ir para o colégio era coisa sagrada. Boina, saia plissada, calças sociais e gravatas eram itens obrigatórios. Tanto charme, porém, devia ser capaz de resistir ao uso freqüente, às estripulias típicas da idade e ao tempo. Em meados do século passado, esses trajes tinham o nome genérico de “roupa de crescimento” - explica-se: as peças eram tão resistentes que bastava à mãe deixar uma barra bem comprida no avesso e ir soltando conforme as crianças cresciam. Com o tempo (pelo menos no Brasil), o guarda-roupa “social-escolar” foi revogado. Dos anos 50 para cá mudaram a moda, os tecidos e o comportamento.
Nos anos 80, a maioria das calças sociais e saias deu lugar a uniformes calcados nos agasalhos esportivos, com direito até mesmo às listas imortalizadas pela Adidas. Adereços como boinas – também encontradas nos guarda-roupas de caserna – entraram para o rol de produtos super-amados por modernos e antenados. O mais interessante: hoje, há estudantes usando boinas por fashionismo e não por obrigação. Sinal dos tempos.
O tema é tão instigante que até virou livro, “História do Uniforme Escolar do Brasil”, do jornalista Furio Lonza, que destaca a influência da moda e do comportamento social sobre os trajes de ir para a escola. A análise chega a observar os papéis da política e do apartheid social no design. Um exemplo: Maria Alice Silvério Lima, uma das pesquisadoras do livro, conta que em 1898 a Escola Caetano de Campos, em São Paulo, era um colégio público destinado à elite. Como todos tinham condições para comprar boas roupas e a moda fazia com que todos se vestissem da mesma forma, os alunos iam para a escola com uma curiosa roupa de marinheiro (nessa época, a Grã-Bretanha mandava no mundo sustentada por uma formidável marinha, ou seja, a ”roupa de grumete” simbolizava poder). A partir dos anos 30, quando o colégio passou a receber crianças de outras classes sociais, as diferenças ficaram evidentes na forma de se vestir e, para impedir a discriminação social, o colégio resolveu adotar um uniforme padrão para todos os alunos.
Estilo corporativo
Trés Charmant - Traje criado em 2005
por Christian
Lacroix para
comissárias de bordo da Air France
O desejo e a necessidade de ultrapassar a simplicidade dos coletes, guarda-pós e macacões oferecidos por lojas ou catálogos especializados em trajes corporativos têm levado muitas empresas a buscar uniformes diferentes. Mais do que vestir os funcionários em termos “meramente instrumentais” – ou seja, com conforto e segurança para o trabalho, e mais nada -, elas perceberam a importância de associar essa imagem à própria identidade. A lógica: se o funcionário é a cara da empresa, então ele deve se vestir bem. Essa é a idéia da chamada “moda corporativa”.
O restaurante curitibano ZEA Mais, por exemplo, chamou o estilista Roberto Arad para assinar seus aventais e uniformes. “É um trabalho de criação. No caso do ZEA Mais, o estilo segue uma linha mais contemporânea”, diz o estilista, que também já criou modelos para a Concessionária Volkswagen Germânia de Curitiba. Arad conta que nesse mercado ainda não existe tanta liberdade, o que faz com que o trabalho seja muito desafiador - e determine novidades das mais interessantes. “Uma empresa que se preocupa com a imagem deve pensar em todos os aspectos.
Além disso, destacar o uniforme diferencia e valoriza o funcionário. É um incentivo para que eles vistam a camisa da empresa e que trabalhem mais satisfeitos”, acredita. Algumas empresas se especializaram nesse filão de mercado. A Santista, conhecida pela fabricação de jeans, possui também uma divisão workwear que é líder no fornecimento de tecidos para uniformização no Mercosul. O segmento engloba atividades que vão do chão-de-fábrica ao atendimento ao público. O diferencial da Santista Workwear é a utilização de tecidos com acabamentos especiais (como antimicrobial, retardante de chamas, repelente de água e óleo e protetor contra agentes químicos). A empresa também fornecer orientação em design, acabamentos, lavagem e modelagem.
Serviço: Jefferson Kullig - www.jeffersonkulig.com.br
Roberto Arad - www.robertoarad.com.br
Santista Têxtil – www.santistatextil.com.br Extra-classe – Tel.: 3077-9668
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