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MODA & DESIGN

Quando o futuro chegou

DANIELLE BLASKIEVICZ
Uma fase de grandes esperanças e de receios fantásticos, de cansaço da guerra e encantamento diante das possibilidades da tecnologia e do consumo. Os anos cinqüenta tiveram tanto destaque na moda e na indústria que muitos de seus conceitos e inovações foram incorporados ao cotidiano como “elementos atemporais”. Nesta reportagem, abordamos o impacto dos “Anos Dourados” na moda e no design que as pessoas consomem hoje. Conira... e descubra porque aquela inveja secreta da geladeira da sua avó não é gratuita!

MODA
Bonequinha de Luxo

Quem ousa dizer que uma mulher com um vestido acinturado e com um salto agulha não está na moda? A menos que a combinação seja muito exagerada, o modelito será considerado um visual “elegante” por qualquer pessoa que tenha sensibilidade e bom gosto. Pois foi nos anos cinqüenta que esse look veio à tona. O mote: atenção total às peças femininas e bem recortadas. “É o auge da alta costura e a decadência do prêt-à-porter”, analisa Daniela Nogueira, professora do curso de Moda do Senai. É a ascensão do estilo “naïf chique” de Audrey Hepburn e Grace Kelly, em paralelo com os símbolos “carnais” de beleza e sensualidade encarnados por Marilyn Monroe e Brigitte Bardot.

O salto agulha, criado em 1954, tornou-se um dos grandes aliados das mulheres. O sapato que levanta o bumbum e dá a sensação de poder foi criação do francês Roger Vivier, estilista que trabalhou com Christian Dior. No mesmo ano, Coco Chanel reabria sua maison em Paris — o escritório permaneceu fechado durante a guerra — e criava peças inesquecíveis, como o tailleur com guarnições trançadas e a bolsa de matelassê a tiracolo que faz sucesso até hoje.

Com a badalação em torno da alta costura — reforçada por nomes como Cristobal Balenciaga e Hubert de Givenchy —, surgem as primeiras top models e dos grandes editoriais de moda de revistas como Vogue e Elle. No Brasil, a revista O Cruzeiro era responsável por tornar acessível ao grande público as novidades ditadas pelas passarelas européias.

Enquanto os franceses brandiam agulhas e tesouras, nos Estados Unidos a indústria têxtil lançava novidades incríveis. Com o surgimento de tecidos sintéticos como o náilon e de equipamentos mais modernos e rápidos para a fabricação de peças em grande quantidade nascia o conceito de sportwear, uma moda inicialmente colegial, que tinha como ícone a saia rodada aliada ao suéter. “Foi aí que aconteceu a popularização das calças para mulheres. Na época, porém, predominavam as calças capri, que eram usadas apenas pelas meninas”, explica Fernanda Marochi, professora dos cursos de Moda da Universi-
dade Tuiuti do Paraná (UTP) e do Senai.

A indústria cosmética passou por um grande crescimento, tanto na maquiagem — principalmente os itens que valorizavam o olhar, como delineadores, sombras e máscaras para cílios (conhecidos como rímel na
época) – quanto na linha para cabelos. Boa parte das mulheres queria, como continua querendo, colorir as madeixas. Alguns itens se tornaram sinônimo de elegância, como o perfume Chanel N.º 5, o preferido de
Marilyn Monroe, e o batom Coronation Pink, lançado por Helena Rubinstein para a coroação da rainha da Inglaterra. E também nessa época surgiam na Europa os primeiros cosméticos feitos à base de plantas — verdadeira mania em nossos tempos ecologicamente engajados.



DESIGN
Colorido, energético e funcional

Bar em madeira - DesmobíliaPraticidade máxima, com generosas concessões à cor. Nos anos cinqüenta, a crença na tecnologia e na energia — e o poder da indústria de bens de consumo — gerou um cenário doméstico fantasticamente articulado, base das nossas atuais “casas inteligentes”. Foi a época de consagração das idéias do
Bauhaus, movimento nascido na Alemanha dos anos vinte. Tanto na arquitetura quanto na produção de bens de consumo, o objetivo era primar pela funcionalidade e pela qualidade, levando totalmente em conta a necessidade de produção em larga escala. “A idéia era de que a forma deve seguir a função do objeto. De que se deve chegar à beleza da forma através da funcionalidade do produto”, explica a professora Marilda Lopes Pinheiro Queluz, da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR). A mensagem valia para a época e, é claro, vale para o nosso dia-a-dia.


Por conta do plástico, os aparelhos de rádio, populares desde os anos vinte, ganhavam novos formatos. Só não viraram “símbolo da casa contemporânea” por conta da popularização dos televisores — os aparelhos da linha Philco Predicta, com tubo de raios catódicos separado da caixa de válvulas e seletores, surgiam nas salas de estar como “totens futuristas” de aspecto assombroso. “Nessa época surgiram móveis muito divertidos, com formas bem humoradas”, destaca o designer João Livoti, proprietário da Desmobília, loja especializada na recuperação, customização e comercialização de móveis das décadas de cinqüenta, sessenta e setenta. Tais peças hoje são procuradas por pessoas que querem dar um toque descontraído, irreverente, à decoração moderna — a “cereja do bolo”, como define Livoti. Para ele, são sinônimo de paixão. “Eu adoro as coisas dessa época”, comenta.

Um aspecto que colabora para que o design original dos anos cinqüenta esteja cada vez mais presente no mercado atual é o fato de que muito projetos da época caíram em domínio público. A arquiteta e proprietária
da indústria de móveis Artesian, Dayane Hadas, explica que o domínio público permitiu a reprodução de peças com design assinado e tornou os preços mais acessíveis. “Além da cultura em torno do design estar mais presente hoje, ela representa o ideal de muitos designers da época que sonhavam com uma
produção em série e menos elitizada, como ocorria então”, lembra.

Fórmicas coloridas, móveis com pés palito, peças em madeiras nobres misturavam-se a plásticos e metais. “O design no Brasil seguiu a ilosoia que predominava no campo político, com Juscelino Kubistchek, de avançar cinqüenta anos em cinco”, comenta a professora Rosane Kaminski, do Centro Universitário
Positivo (UnicenP). Os eletrodomésticos ganharam formas aerodinâmicas, arredondadas. A indústria automobilística seguiu a mesma tendência, investindo nas formas futuristas, que denotam movimento, luidez. É o caso do Chevrolet Bel Air, um dos carros mais lembrados da Chevrolet, e mesmo o próprio Fusca, que começou a ser fabricado no Brasil em 1959 e que, em tempos recentes, voltou ao mercado repaginado, mas com a mesma forma de besouro.

A decoração e o design de objetos que se seguiram incorporaram muito desse design, especialmente a funcionalidade, a ousadia nas cores e mesmo os “arroubos criativos” calcados nas idéias
acerca do futuro.

 

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