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PERFIS

Um pouco de terra natal

Quatro estrangeiros e um elemento em comum: a vida em Curitiba. Nesta reportagem, traçamos seus perfis para mostrar como heranças culturais e vivências pessoais podem tornar mais rica a vida de toda uma cidade.

Texto: RODRIGO APOLLONI
Foto:
RAFAEL DABUL


CHARIFE NAJAR

Do Bekka ao Cristo Rei

Dona Charife Najar, 74, pode ser encontrada todos os dias em seu restaurante, o Al Beirute, no bairro do Cristo Rei. Chega no inal da tarde para comandar pessoalmente a cozinha e só vai embora depois que o último cliente, satisfeito, pede a conta. Sua paixão é preparar cada prato com absoluto respeito à tradição de seu país de origem. Libanesa nascida no Vale do Bekka, chegou a Curitiba ainda adolescente,
há 56 anos. Constituiu família – ela tem seis filhos, sete netos e um bisneto – e se dedicou a difundir uma parte importante da cultura dos povos árabes, a culinária. Uma parcela do amor que os curitibanos têm pelas sihas, quibes, lãbin (coalhada seca) e doces árabes, aliás, pode ser atribuído a seu talento como chef de cozinha. Temperos, por exemplo, só utiliza originais, adquiridos pessoalmente nas viagens que, todos os anos, faz ao Líbano. “Os temperos aqui não são tão bons. Isso acontece porque no Brasil chove muito. No Líbano o clima é mais seco e o sabor das especiarias é mais forte”, pondera.

Apesar de sua profunda ligação com a culinária, Dona Charife conta que foi só no Brasil que esse talento passou a ser encarado em termos proissionais. “No Líbano, era uma tradição de família. Em minha casa, quem cozinhava era minha mãe, minha avó. Foi com elas que eu aprendi um pouco de cada coisa, de cada prato que hoje ofereço aos meus clientes”, conta.
E os curitibanos, como acolheram a culinária árabe? Sempre com muito gosto. “Os clientes comem, repetem os pratos várias vezes e levam para casa”, comemora.

Segundo a proprietária do Al Beirute, a comida árabe já pode ser considerada uma tradição curitibana - e também, um caminho para fazer amigos. “Viver em Curitiba é muito bom. Todo mundo é amigo da gente: brasileiro, árabe, judeu, todo mundo gosta de comer bem.” Perguntada sobre o que levaria do Brasil para o Líbano, Dona Charife é pragmática: “Café e chocolate. Outras coisas, não, porque lá tem tudo”. Sua terra natal, pode-se observar, é fonte permanente de inspiração – e de coisas gostosas. “Eu
vou passear e aproveito para trazer doces, frutas, temperos. Lá tem muitas coisas boas”, airma. Coisas boas, boas lembranças e um afeto à cultura expresso e percebido em cada prato que serve a seus clientes.

ERIC GOZLAN
Lunettes... comme il faut

Eric Gozlan, 31, é natural de Saint-Denis, cidade situada ao norte de Paris. Formado em Óptica e Optometria
em seu país, chegou ao Rio de Janeiro em 1998 para trabalhar em uma multinacional francesa. Gostou do Brasil e, depois de três anos como funcionário, resolveu abrir seu próprio negócio: a Eric Gozlan Lunettes, uma boutique deóculos que oferecesse o que a tecnologia e o design franceses têm de melhor. “A França é o berço do design de óculos. Lá é que nasceu o savoir-faire e é lá que está grande parte do que se produz de melhor no mundo atualmente. É parte da cultura nacional”, explica. “Minha idéia era trazer esses valores para cá.”

Depois de pesquisar o mercado, optou por Curitiba.“Eu conhecia a cidade de viagens e percebi que, aqui, seria mais fácil abrir uma loja. Não havia nada parecido com o que eu estava propondo.” Em 2002 inaugurou a boutique em um imóvel próximo à Praça da Espanha, no Batel.

E o público curitibano, como reagiu? No início, com certo estranhamento, mas, mesmo assim, com grande receptividade. “Os curitibanos são muito sensíveis a coisas novas e consomem bem”, analisa Eric. Ele aboliu o jaleco branco e investiu em um ambiente caloroso, em que o atendimento vai além da “leitura e tradução” da receita médica. “É possível que outras óticas brasileiras trabalhem assim, mas, no geral, são muito simples. Nós fazemos uma consultoria estética que leva em conta o fator psicológico, o formato do
rosto e os contextos de uso dos óculos”, explica. “Nunca mostramos quarenta pares de óculos para um cliente. Oito opções, selecionadas depois de uma boa conversa, são mais do que suicientes.”

Atender o público local também exigiu adaptações. “Na França, as pessoas são mais formais. Aqui, são mais cúmplices”, observa. Em relação às preferências, também foi preciso certos ajustes. “No geral, os brasileiros ainda não aceitam peças muito arrojadas. Os homens, por exemplo, não aderem com facilidade a armações coloridas.”

E o que fica da experiência brasileira? Principalmente, a cordialidade. “Se eu pudesse levar alguma coisa para o trabalho em um outro país, seria essa aproximação, o espírito alegre. Levaria, também, o ritmo de vida mais tranqüilo. Na França, o tempo é muito mais curto.”


MARIA AMOR PRESA
Impressões madrilenhas sobre um Brasil diferente

Maria Amor Presa, 32, é natural de Madri. Foi lá que ela conheceu o marido, Rafael, um curitibano que ha-
via ido à Espanha para fazer doutorado. E foi graças a esse encontro que ela tomou contato com Curitiba, cidade onde vive desde fevereiro do ano passado. “Até então, eu tinha informações do Brasil por meio de livros e relatos de viagem. As pessoas falavam basicamente de samba, carnaval e caipirinha”, recorda. Ao chegar em Curitiba, ela se apercebeu em uma realidade diferente. “Em alguns aspectos, a cidade é muito moderna, você vê coisas que a Europa ainda não possui. É o caso, por exemplo, dos ônibus biarticulados, que foram criados aqui e copiados por Madri. Em outros aspectos, como o dos espaços reservados para os pedestres, porém, a infra-estrutura pode melhorar”, pondera.

Formada em Administração de Empresas, Maria optou, em seu primeiro momento no Brasil, por se dedicar à difusão de elementos da cultura de seu país. Hoje, dá aulas de espanhol e lamenco, além de fazer traduções. “Eu tenho uma ligação muito forte com a cultura espanhola e gosto muito de dar aulas. Ao chegar em Curitiba, percebi que poderia trabalhar com isso”, explica. No futuro, ela também pretende retomar as atividades na área de administração – sem perder, porém, o vínculo com as atividades de difusão da cultura espanhola.

Sobre a convivência com os curitibanos, Maria se diz especialmente impressionada com a hospitalidade. “As pessoas são muito afetuosas, não apenas em relação aos conhecidos, mas também no atendimento de clientes, que é educado e carinhoso. Elas pessoas costumam atender sempre sorrindo. Isso é algo que eu percebo claramente quando volto à Espanha”, observa. Esse é um valor que ela gostaria de incorporar se um dia viesse a trocar Curitiba por outra cidade.

Ao mesmo tempo, Maria percebeu o quanto os curitibanos são ligados à família, o que, de certa forma, alimenta a imagem de um povo “fechado”. “Eu não sei se é o clima, mas o fato é que os curitibanos gostam muito de fazer atividades em família e de icar em casa. Na Espanha, as pessoas são mais sociá-
veis, elas gostam mais de sair à noite, de ver outras pessoas.” Essa sociabilidade é um valor que ela gostaria de incorporar ao jeito de ser curitibano. “Conheço outros imigrantes espanhóis, pessoas jovens, e é possível que nós possamos trazer um pouco dessa cultura para cá.”

 

JOACHIM ANDRADE
A dança como celebração do espírito

No séc. XXI, padres dançarinos já não causam estranhamento. Agora, se o padre é um indiano vivendo em Curitiba e a dança em questão é um estilo difundido há séculos na terra de Gandhi, temos, no mínimo, um personagem instigante. Joachim Andrade, 44 é nativo de Mangalore, cidade do sul da Índia. Sacerdote católico da Congregação do Verbo Divino, chegou a Curitiba há treze anos. Aqui, além de realizar trabalho pastoral, também se dedica a ensinar Bharata Natyam, estilo clássico de dança considerado um tesouro cultural indiano.

“Tomei contato com a dança ainda adolescente, quando assistia apresentações do chamado teatro Yakshagana. Mais tarde, quis conhecer melhor a relação entre essa dança e a religiosidade”, explica. Como estava no seminário, pediu autorização aos superiores e começou a praticar. No início, recorda, o aprendizado foi muito penoso. “Depois de três anos, percebi que havia alcançado uma resposta
e então me apaixonei. Foi quando passei a interpretar, meditar e articular essa arte em diversos momentos”, explica. Em 1990 recebeu o título de especialista em dança pelo Gyan Ashram Institute of Performing Arts, de Mumbai e, em 1992, ordenou-se sacerdote católico.

Sua primeira apresentação no Brasil foi realizada em 1994 em Curitiba, para um pequeno grupo de praticantes de Yoga. “Eu percebi que a apreensão da arte independe de cultura ou religião. E, desde então, comecei a investir no ensino.” Hoje, é proprietário da Ravi Santosh Performings Arts, que funciona em um imóvel da própria congregação no Alto da XV. Lá, dá aulas para cerca de vinte alunas. “Os curitibanos são apaixonados pela Índia e a cultura indiana tem muito a oferecer, principalmente em termos de percepção do sentido da vida”, airma. Joachim precisou fazer algumas adaptações, como, por exemplo, reduzir o rigor das aulas. “Na Índia, os professores são muito rígidos. No Brasil, é preciso ensinar com mais docilidade.”

E os curitibanos, o que ensinaram ao mestre de dança?“Duas coisas: em primeiro lugar, um sentido de ordem, de organização, tanto interna quanto externa. Em segundo lugar, um sentido de generosidade e fraternidade. São valores que eu incorporei e que fazem com que eu me sinta verdadeiramente curitibano.”

 

 

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