MODA
Bala na agulha
Estilistas locais comemoram o crescimento
da cultura de moda em Curitiba
PRISCILLA FOGGIATO
A quem interessar possa – e certamente são
muitos: Curitiba já tem uma cena de moda. E ao contrário
do que parece à primeira vista, não é
uma cena qualquer, ainda incipiente. A capital paranaense
já produz moda internacional além do streetwear
e está aos poucos conquistando mais espaço
no cenário nacional.
Um dos nomes de maior destaque no cenário brasileiro
atualmente, Jefferson Kulig é o exemplo da moda de
qualidade que é feita aqui e exportada para o mundo.
O estilista e, mais que isso, designer de tendências,
é formado em Economia e começou a interessar-se
pelo vestuário ainda na fábrica de tricô
de seus pais. Foi quando teve as primeiras experiências
com os pontos e a trama do tecido.
Preocupado com o aperfeiçoamento do seu modo artístico
de ver e criar sua moda, fez um curso de criação
com Marie Rucki, em São Paulo, e de lá para
cá começou a desenvolver um trabalho de características
muito próprias e bem marcadas. Em parceria com a
Rhodia, Kulig passou a desenvolver seus próprios
tecidos e estampas a cada coleção. Foi então
que criou o famoso “borracha” – tecido
de alta tecnologia que tem a estrutura alterada por um processo
de vulcanização. É aí que
começa o diferencial da moda desenhada por Kulig:
trabalhando prioritariamente com tecidos sintéticos,
ele desenvolve cerca de oito para cada coleção,
além das estampas e do detalhe – fundamental
em algumas peças – do corte a laser. “Eu
procuro um tecido que valorize o corpo feminino, deixe mais
bonito sem colar, como a lycra. Que não acompanhe
as formas do corpo, mas sim a curvatura natural”,
explica.
Todo esse trabalho artístico já foi vastamente
reconhecido fora daqui – com a participação
no reconhecido São Paulo Fashion Week desde 2003.
Coincidentemente ou não, foi na mesma época
que o estilista notou que a cidade começava a aceitar
mais o tipo de moda produzida por ele. “Há
dois anos o público de Curitiba parece estar se tornando
mais ousado, a cultura de moda está mais acessível”,
comenta. Conceito x marca
A mesma opinião é partilhada por Roberto Arad,
dono da marca que leva seu nome e outro pioneiro no design
de moda contemporânea na cidade. “A moda aqui
evoluiu bastante não só em relação
ao estilo, mas também na formação profissional”,
afirma. Arad possivelmente fala dos cursos de Design de
Moda que abriram recentemente na Universidade Tuiuti do
Paraná e no Centro Europeu, que de tempos em tempos
despejam novos estilistas embalados por eventos como o Curitiba
Fashion Art. De
acordo com Arad, o curitibano está mais orgulhoso
de vestir uma moda feita por quem conhece. Com uma moda
mais voltada ao dia-a-dia, seus jeans de cortes diferentes
e camisetas com estampas ousadas são facilmente vistos
circulando na cidade, usados por quem se importa com o conceito
por trás da marca. Apesar de já ter vendido
bem em São Paulo, Arad tem como seu melhor público-alvo
o que ele chama de vanguarda curitibana. “Curto mesmo
é ver as pessoas daqui lotando uma sala para ver
meu trabalho.”
Outro estilista bem recebido pelo público é
Jean Pierre Lobo. Preocupado em vender o conceito e ter
estilo próprio, atualmente está tentando levar
seu design até mais pessoas. “Não vale
a pena desenvolver uma coleção por estação
se a produção é muito exclusiva. As
pessoas que usam minhas roupas têm o mesmo estilo
de vida, não dá pra ficar encontrando gente
vestida igual quando sai nos mesmos lugares à noite”.
Jean é outro estilista que diz que a cidade está
mais receptiva à moda. “Atualmente o público
presta mais atenção no que é mais conceitual,
não em moda casual”.
A conhecida logomarca JPL tem planos de levar suas pesquisas
de corte, design e estampas exclusivas para outras cenas
que possam absorver seu estilo com mais intensidade, como
Estados Unidos e Londres. Jefferson Kulig já conquistou
o exterior, vendendo para Nova Iorque, Arábia Saudita
e até Japão – este último em
contatos via internet. Do
outro lado da rua
Fazendo uma moda mais casual, caindo no streetwear, estão
a LAMB e a Candyland. A LAMB – sigla para Laboratório
Alternativo de Moda Brasil – surgiu da idéia
de amigas que já trabalhavam com moda, porém,
não se sentiam livres para criar e vender o que gostavam.
“Nós queríamos espaço para vender
o que não está nos shoppings. Os lojistas
não ousam, só querem o que está na
moda”, conta Gabriela Garcez, uma das sócias.
Gabriela
cursou Moda no Senai com Carolina Marzall, que já
tinha experiência com confecção, e juntas
colocaram em prática a liberdade criativa com a possibilidade
de vender direto ao consumidor. Não se importando
com o rótulo de underground, elas desenvolveram seu
estilo muito pessoal de estampas, bordados, cortes, criando
uma estética muito urbana.
Muito procurada por artistas, a LAMB incorporou logo ao
seu casting a fotógrafa Líris Robert. Líris
começou criando estampas a partir de suas fotografias,
e logo uniu sua arte ao corte e customização
das roupas. “Meu forte é a imagem, que eu quero
passar através da roupa”, explica, usando camisetas,
luvas, casacos e blusas como suporte.
As três dividem um estúdio e não pretendem,
ao menos por enquanto, sair do esquema quase artesanal,
de exclusividade de peças. “Não queremos
descaracterizar o nosso conceito, por isso não dá
pra revender em qualquer loja”, diz Gabriela. É
uma escolha difícil. “Apesar de estarmos sendo
bem recebidas, o mercado de confecção em Curitiba
é difícil e ainda vê a criação
como um gasto, não como um investimento”, diz
Carolina. Quadrinhos no peito
Levar a arte para o cotidiano foi também a forma
encontrada por Guilherme Caldas, proprietário da
Candyland, de fazer o que gosta e criar um jeito diferente
de vestir. A história por trás da marca é
simples: estudante de Artes Plásticas na USP, Guilherme
envolveu-se com fanzines, quando nasceu o nome Candyland.
Dos fanzines às camisetas com personagens foi um
pulo. A
confecção, apenas um dos braços da
empresa de Guilherme, teve um começo difícil.
“Em 1999, ninguém falava de camisetas ou ligava
para a estampa”, dispara. Aos poucos a Candyland começou
a firmar-se no mercado sempre casada ao conceito artístico
e outros quadrinistas passaram a ser convidados para estampar
seus desenhos no peito dos curitibanos.
Os artistas entram com uma história ou quadrinho
que é associado a estampas da coleção.
“De preferência, coisas simples e diretas. Nesse
caso, sou mais editor que estilista”, brinca Guilherme.
Não há uma coleção fixa e nem
uma tendência. Nem a identidade com o público
que aprecia quadrinhos era uma meta: como a LAMB, a Candyland
vende uma idéia e um estilo de vida.
Pouca pretensão já rende bons frutos: a marca
está em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro
e até Fortaleza e, apesar do sucesso no mundo indie
de Curitiba, ainda é fora do Paraná que vende
mais. Talvez, aos poucos, o curitibano resistente e conservador
esteja abrindo uma janela ao novo que chega com a moda.
Serviço: Jefferson
Kulig - Endereço: Rua Saldanha Marinho,
1570 - Telefone: (41)3225-3502 - Site: www.jeffersonkulig.com.br
Roberto Arad - Endereço: Rua Vicente
Machado, 664 - Telefone: (41) 3029-2770 - Site: www.robertoarad.com.br
Candyland - Endereço: Rua Mauá,
111-a - Alto da Glória - Telefone: (41) 3363-5784
- Site: www.candyland.com.br
Jean Pierre Lobo - Endereço: Rua
Vicente Machado, 833 - Telefone: (41) 3233-8637 Lamb
- Endereço: Rua Vicente Machado 738 - casa8 - Telefone:
(41) 9187-8364

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